quarta-feira, 27 de março de 2013

Sucesso, dinheiro e felicidade - Três coisas diferentes

Boa noite.

Essa semana estava conversando com um amigo, que, por razões éticas, não vou citar o nome. Também este amigo optou por dissociar-se de quaisquer redes sociais, tornando-se impossível mencioná-lo sem tirar-lhe o direito de resposta. Dessa forma, chamarei-o de Amigo - ele vai ser importante na elaboração deste texto.

Pois bem. Nossa conversa seguia-se por rumos de dinheiro. Somos ambos pessoas bastante ambiciosas (que construção feia de frase... "Ambos" e "ambiciosos", mas não consigo pensar em nada melhor) e jovens, e discutimos regularmente "estratégias" para ganhar dinheiro. Invariavelmente, nossa conversa aprofunda-se ao campo da felicidade - por quê ganhar dinheiro? Para quê viajar o mundo? Como, quando, onde? -, e esse último diálogo em especial foi bastante esclarecedor.

Deixem-me contar-lhes um pouco a respeito do Amigo. Ele é um ano mais novo do que eu, mas mais inteligente e bem mais competente. Quieto, bastante reservado, sem humildade nem arrogância e a autoestima em dia. Em méritos pessoais, ele beira a perfeição entre equilíbrio e brio, tornando-se mesmo difícil descrevê-lo. E consegue passar essa imagem. Porém, é uma pessoa indiferente em relação à sociedade que o cerca; Não se importa com as pessoas, mesmo que informe-se dos acontecimentos. Nunca esteve com uma mulher (em parte, por opção) e não tem interesse imediato, ao contrário do padrão dos jovens, especialmente do sexo masculino. É uma pessoa peculiar. Membro da classe média-alta, filho de médico, irmão mais velho, branco, magro. Não bebe, nem fuma. Parece ter uma vida muito fácil, e eu costumeiramente digo isso a ele.

Mas ao contrário de ofender-se, meu Amigo diz "sim, é bastante fácil mesmo. Não vivo por mim mesmo e nem preciso à curto prazo - exceto por questões de orgulho, não precisaria nunca. Faço o que tenho de fazer, jogo jogos online e me divirto com o pessoal. É o suficiente. Eu sou feliz". Apesar dessa definição de felicidade ser muito simples e quase intimidante para a maioria das pessoas, é a mais comum de todas: Uma vida sem preocupações emergentes. Uma vida com dinheiro, mas não necessariamente com excessos - a nossa vontade ao excesso, acredito eu, provém da extrema falta. O que não nos é suficiente, ou assim acreditamos, faz-nos querer mais em quantidades abusivas.

Esse Amigo, porém, deseja ter dinheiro apenas para manter seu padrão de vida atual: Sem se preocupar. Não pretende trabalhar muito, apenas o suficiente para "poder viajar de vez em quando sem prejudicar minha reserva anti-problemas". E é essa a definição de felicidade dele.

Bem, eu estava lendo o maravilhoso A Arte da Vida (BAUMAN, Zygmund), e o autor faz uma excelente dissertação sobre a felicidade (recomendo muito o título "MODERNIDADE LÍQUIDA", do mesmo autor, a priori, para familiarizar-se com o filósofo; depois, todos os livros são bons), correlacionando-a com o sucesso, e por consequência, com o dinheiro. Bauman sugere que felicidade não é um estado conforme acredita-se por conformista opinião; A Felicidade seria uma busca, e a busca seria pontuada por sucessos e fracassos, e que, em geral, dinheiro interfere como um "pequeno sucesso social" dentro dessa felicidade proposta; E quanto mais sucessos, mais perto da metade do caminho entre a Vida e a Felicidade (Paradoxo de Zenão) o "corredor-vivente" estaria. Felicidade abstrata difere-se da pregada pela mídia, ainda segundo Bauman, e a pessoa condicionada a viver acreditando que é feliz não é necessariamente, de modo que a influência da sociedade não transforma o mais intrínseco da pessoa, isso é, não muda seu direito e vontade de ser feliz.

Trocando em miúdos e tentando formar uma opinião convincente, diria que compreende-se feliz uma pessoa que tenha tido sucessos seguintes em sua vida, ou ainda que não procure o sucesso financeiro. Dinheiro (auxilio-me do jargão satírico "Dinheiro não compra a felicidade, mas ajuda"), grande vilão e necessidade social, é apenas um fator - e pequeno, diga-se de passagem, tendo em vista que é finito e frustrante - na vida de alguém de fato feliz. Não digo-o também como indispensável: Você precisa ter um mínimo, porém até quanto "excesso" podemos ter sem que se torne uma obsessão, potencial bloqueio de uma vida feliz?

O sucesso profissional não advém do sucesso financeiro necessariamente. Conforme já exposto no meu texto "Ética Comportamental e Aplicada", você pode ter uma vida suficientemente ética e ser bem-sucedido e até mesmo feliz por isso. Insta mencionar que não insinuo aqui que é obrigatório a alguém rico ser desonesto, apenas sugiro que existam outras maneiras de sucesso profissional. O sucesso é, em verdade, toda e qualquer coisa que te faça sobressair-se perante à sociedade. Desde uma sugestão em público que tenha 'dado certo' à ganhar na loteria. Tudo que te faça, perante os olhos algozes da sociedade, alguém MELHOR numa interpretação egoísta, constitui um sucesso. 


Imagino também que muitos de vocês podem pensar "mas como alguém pode ser feliz se não se diverte?" E eu concordo até certo ponto. Exageros e obsessões também são empecilhos, de modo geral, nesse critério. Mas gostaria de lembrá-los que o lazer é extremamente subjetivo: O Amigo pode se divertir mais enquanto joga uma partida de solitaire do que uma pessoa normal se diverte saindo com amigos. Não podemos definir o quanto uma pessoa se diverte, tanto quanto não podemos medir a felicidade de alguém sem entendermos sua psiqué.


Entendemos assim que sucesso é um passo em direção à felicidade teoricamente inatingível e/ou a um custo relevante extremamente alto (como é o caso do Amigo: se ele não fosse como é, não aguentaria a intolerância da sociedade), dinheiro é uma forma de sucesso relevante porém não imprescindível e felicidade, meus amigos, felicidade é um conceito pessoal, interno, relevante apenas à você e que, se compreendido dessa forma, se de fato assimilado, é vivido. A opinião das outras pessoas é relevante nos assuntos que competem às outras pessoas e à sociedade como um todo... E a sua felicidade não compete.

Dito isso, creio que eu tenha um pouco de inveja do Amigo.
E acho que ao terminar de ler esse texto, a grande maioria também sentiu.

Obrigado pela paciência e cordialidade,
(Estou quase implorando por comentários - sério! Que adianta ler até aqui e não falar nada!? Hein?! Hein?!)

Caio.

7 comentários:

Diogo Cristiano disse...

Um ótimo texto. Também conheço o "Amigo" e ele é realmente genial, admiro ele infinitamente pela sua visão do mundo e principalmente de sua visão, como o Caio acabou de citar, da felicidade.

Anônimo disse...

O tema da redação do vestibular da UFRJ de 2011 foi exatamente "O que há de errado com a felicidade?" (inclusive com questões de outras matérias com esse texto de Bauman, do livro A Arte da Vida).
O período caracterizado por Bauman como "modernidade líquida" deixa os indivíduos em constante instabilidade, assim como os referenciais. Esta situação tem como resultado obsessões e inseguranças que o modo de produção atual tenta satisfazer com o consumo de produtos.

De fato, não há nada errado com a felicidade. Ela é subjetiva e imutável.
O problema é a busca incessante pelo "bem estar eterno" divulgado como existente em comerciais e o que é considerado como "modo de atingi-lo" pela sociedade.

Caio Oleskovicz disse...

Esse ponto do "que há de errado com a felicidade" é tão relevante que não podemos deixá-lo passar. O que há de errado não é a felicidade e sim a nossa compreensão da mesma - enquanto confundirmos termos MUITO de algo com felicidade plena, teremos problema nesse sentido.

Inclusive, acho que sobre isso, quem pode nos "cantar" melhor é Raulzito:

http://www.youtube.com/watch?v=Y4VLYf7y-pw

Obrigado pelos comentários,

Caio

Aleksey Panda disse...

Muito bom o texto e muito foda o Amigo. Felicidade depende de cada um.

Anônimo disse...

Gostaria de salientar que isso vem de uma dedicação, apoio emocional, amor incondicional e cobrança necessaria. Mais importante é a confiança que sempre depositamos nele. Acho que fico feliz com esse texto, realizada na minha dedicação incodicional.

O Amigo disse...

Fiquei sabendo do texto hoje, não imaginei que a conversa surtiria tal efeito. Honestamente, espero não iludir ninguem com a possibilidade de uma felicidade plena. Mas, colocando em minhas palavras, não tão trabalhadas quanto nosso querido redator fez passar, eu sou feliz porque não há nada que me impeça de ser feliz.
Por sinal, só respondi pra poder usar o nome de "O Amigo". Merecia até achivment.

raulmq disse...

Genial, como todos os seus textos!
Demorei um bocado para ler pois minha busca pela felicidade tem sido um tanto quanto obstinada.
Concordo com o conceito de felicidade como consequência de uma série de sucessos. Aliás, acho que é a melhor definição que já encontrei.
Tenho encontrado a felicidade em realizações profissionais, financeiras, pessoais e mesmo artísticas e pretendo continuar. Creio que você tem este blog como uma de suas realizações para uma felicidade e terá muitos outros motivos.
E o Amigo é realmente bastante invejável com sua felicidade simples. Queria eu ter um coração menos aflito para ter sonhos mais tranquilos também.

Continue escrevendo que eu continuarei lendo!
Grande abraço!