segunda-feira, 6 de maio de 2013

Um Renomado Jornalista

CRÔNICA

Por Caio Oleskovicz. Todos os direitos reservados. É uma história de ficção. Ou não.


Meu chefe tinha mandado me aprumar para o dia de hoje. Nós íamos visitar uma favela, quero dizer, uma comunidade (porque favela é ofensivo, não é?), e tínhamos que parecer senhores, doutores. O documentário ia ser vendido em mais de vinte países, mas não no Brasil, afinal, nós não produzimos doutores internacionais. Senhores da ONU analisariam a precariedade da vida de nossa miséria a partir do meu trabalho. 

Por isso, era imprescindível estar bonito. "Imagine se apresentam pro Dalai Lama um jornalista vestido em farrapos?", era o que meu chefe dizia. Vesti meu paletó italiano, coloquei uma meia francesa, uma gravata escocesa. A cueca era brasileira mesmo, mas não tinha problema (meu chefe não perguntaria sobre ela... Acho). Saí de casa "nos trinques", prontinho para ser reconhecido pela mídia internacional.
Chegando no lugar em que nos reuniríamos, notei e estranhei a ausência de policiais. Fiquei preocupado com a minha segurança - minhas roupas eram caras demais! Céus, não havia pensado naquilo. E se me roubassem (até as cuecas - se bem que eram brasileiras, graças a Deus, não valiam nada) para comprar drogas ou-seja-lá-o-que-favelado-quer-comprar? Ai Jesus. Estava rezando minha quinta Ave-Maria quando o chefe explicou:
  - Eles não permitem a entrada de policiais... 
Como não?! Que diabos?! E quem eram "eles" para permitir ou negar alguma coisa?! Ia falar tudo isso, mas segurei minha língua. Estava tudo bem; Eu estou prestes a me tornar um jornalista internacional, pensei, me animando de novo. Dane-se se roubassem meu terno. Faria o documentário nem que só de cuecas brasileiras. Éramos cinco: O cameraman, cujo nome não lembro (ele só segura a câmera, sei lá se precisa de faculdade para isso; E se não tem faculdade, vai lá ter nível para falar com um dos jornalistas mais promissores que eu conheço, eu mesmo? E se não tem nível, pra quê decorar o nome do cara?); O chefe (não sei direito o que faz, mas ele tem MIT); O Pierre, que fazia as montagens das cenas e ficava falando em coisas complicadas (pra quê eu tenho que entender de Photoshop se tem esse cara para fazer isso?) e a Ana, uma socióloga (não me perguntem para quê diabos levaram ela lá). 
Subimos a encosta em um sedan; o chefe dirigia. Eu estava pensando em todas as perguntas que iria fazer para aquela gente; Nem percebi quando estávamos no topo. Lá em cima, havia um sujeito extremamente mal-encarado que me fez voltar às Ave-Marias. Paramos o carro, o chefe desceu e falou com ele. Voltou correndo:
 - Liga a câmera! Liga, liga!
Meio desesperado, nosso cameraman ligou. 
 - Aponta para aqueles pneus! Vai, anda! Só grava!
Hã?! Para que gravar uns pneus? Eu não tinha nem notado a presença deles; Eram uns oito, um em cima do outro, bem sem-graça (e provavelmente roubados, é claro). Já ia afobadamente expressar minha indignação (imagine o Dalai Lama vendo pneus!) quando o sujeito mal-encarado ateou fogo aos pneus. 

E de lá, vieram gritos. Tinha gente dentro dos pneus.

Senti minhas pernas tremerem. Quis sair correndo; Fiquei horrorizado, apavorado. Pensei que seria um momento adequado para mijar nas calças (e depois poderia contar isso aos meus netos, se saísse vivo dali); Mas não consegui. Fiquei vendo o cameraman gravar e a pessoa dentro do pneu morrer. Ana olhava, impassível. Parecia fria e resoluta. 
  - Como você consegue olhar para isso sem perder a calma?
  - Isso o quê?
  - Essa pessoa morrendo! 
  - Bem, é um tipo de justiça. É horrível, não é?
  - É uma abominação! Justiça?! Isso aqui é uma loucura! 
Ela olhou pra mim com uma expressão estranha. 
  - Você não sabia que aconteciam coisas como essa? Não assistiu Tropa de Elite?
Bah, aquele filme. Todo mundo falava dele como se fosse verdadeiro. "Exageros", eu diria, enquanto tomava uma Duff na mesa do bar.
  - Nunca imaginei que ocorresse de verdade... 
  - No entanto, ocorre. 
Ainda não conseguia compreender por quê ela estava tão impassível. O chefe falou baixinho: 
  - O Zé Pequeno ali disse que é um playba que tentou denunciá-lo. 
Um arrepio. Então era uma pessoa de bem. Alguém provavelmente que notou a loucura e tentou fazer um pouco de bem ao mundo. 
  - É esse o destino dos bons. O playba morreu como um herói - disse, tentando voltar à minha forma normal e respeitável. 
A socióloga olhou para mim com inconfundível pena. Ela tinha um olhar de presunção, como alguém que sabe mais. Bom, que soubesse. Em breve eu seria um j-j-jornalista renomado... 

Começamos a entrevistar as pessoas. Primeiro, fomos numa "casa" (era um barraco nojento). Peguei o microfone e perguntei ao "cidadão" que morava lá se podia lhe fazer umas perguntas. 
 - Pode sim. 
Ótimo; Perguntei sobre como era morar na comunidade (favela é ofensivo, ficava repetindo mentalmente), sobre como ele chegara até ali, e demais coisas da vida dele. Me contou tudo com bastante entusiasmo; Pareceu encantado em me perguntar depois da sessão: 
 - Isso aí vai passá na Globo?
Quase ri na cara dele. Na Globo
 - Sou um jornalista de respeito, meu caro, não um reles mercenário. Isso será divulgado ao mundo.
Ele não entendeu muito bem, mas assentiu. 

E conforme eu fazia as entrevistas, notava uma plácida felicidade sofrida naquele lugar. Logo eu não estava mais chamando os casebres de barracos, mas de casas; Ainda, porém, não compreendia como eles poderiam chamar de lar. Inquiri vários sobre o tráfico, perguntei-lhes se tinham medo. "Eles protegem", era a invariável resposta, embora eu não tivesse bem certeza de quê. 
Um dia estava no carro, vendo Pierre fazer suas edições, quando comentei em voz alta: 
 - Esse povo é louco, defendendo bandido... Bandido bom é bandido morto. 
Ana olhou pra mim; Era a primeira vez que dirigia a palavra em dias.
 - Se você acha isso mesmo, porque ficou assustado quando viu o Zé Pequeno queimar aquele playba
Teria a socióloga perdido o juízo? Não: Para ser sociólogo, provavelmente, não pode-se ter juízo. 
 - Porque ele não era um bandido. 
 - Era um bandido aos olhos dessa sociedade; Para eles, o que o playba fez foi um crime. Para eles, todos que morrem na guerra do tráfico morrem como heróis, como você sabiamente disse do playba
Fiquei embasbacado; Gaguejei as palavras pre-determinadas:
 - Se você g-g-gosta de bandido, então l-l-leva para casa...
Ela sorriu, sabendo que não precisava nem responder. Até que para uma socióloga essa moça era bonita. 

Finalmente tinha chegado o último dia dentro da comunidade. Eu tinha visto muitas outras coisas horríveis; Esgoto ao céu aberto, crianças chorando por falta de comida, traficantes "trabalhando"... Fui para minha última entrevista, e gelei até os ossos (voltei para minhas Ave-Marias; A conta estava em cinco mil, quatrocentos e noventa e duas) quando vi que era ninguém menos que o Zé Pequeno. 
 - B-b-b-b-b-boa tarde. 
 - Boa tarde. - A resposta dele foi cortês, num português grosseirão. 
 - Gostaria de satisfazer uma curiosidade antes de começarmos, se o senhor...
 - Não me chama de senhor não. Não sou senhor de nada não. Quem tá de terno aqui é o senhor, doutor. Eu sou só um mulambo aqui. E pro doutor ver: Aqui um mulambo inspira mais medo que um doutor. 
Não soube muito bem como responder à isso. 
 - Bem... O seu apelido é pelo filme "Cidade de Deus"? 
Ele riu. 
 - É, me acham parecido com o cara do filme... 
 - Entendi. Bem, cameraman, comece a gravar.
E conforme ele me contava sua história, a repulsa que eu tinha passou a virar certa compaixão. Eu entendi porque ele entrou pro tráfico aos onze anos, e quando ele disse que era uma sorte estar vivo até agora (tinha vinte e três), acreditei nele. Eu não o via mais como problema social; Ele era, agora, consequência. Minha ira, antes voltada ao bandido, voltou-se ao governo. Ele também o criticava, e no fundo, eu concordava. 
 - Bem, terminamos. 
Ele assentiu, o cameraman desligou tudo. Antes de eu ir finalmente embora, falei: 
 - Pôxa, é preciso ter coração pra aguentar tudo que vocês passam por aqui...
Para minha surpresa, ele respondeu.
 - Coração? Coração é para o filhinho de doutor da classe média. Coração é para aqueles que não têm problema nenhum, não sabe o que é ter problema, e quer ter problema só para parecer mais interessante pros amigos do colégio particular. É chato ser normal, aí eles dizem que precisa ter coração. Precisa ter coração pra assistir um jogo de futebol, irmão. Isso aqui não é jogo de futebol não. Aqui a gente não tem coração: A gente tem estômago. É preciso ter estômago. Pra ver seu irmão ali, vivendo na merda. Seu irmão que cresceu contigo morrendo por uma bala. Que pode ter sido você que disparou, entende, a gente nunca sabe... Pra ver seu pai trabalhar vinte anos no mesmo lugar e ganhar a mesma coisa, e ver sua mãe se desesperar quando você quer melhorar a vida de todo mundo e entra pro tráfico. Precisa ter estômago quando sua mãe te chama de bandido e você aguenta isso porque sabe que precisa da grana. Quando você vê seu irmão de sangue ficar doente de fome. Fome, irmão, porque ninguém tem dinheiro e ninguém quer ajudar. Estômago, irmão. Coração, não. Vai com Deus, vai na paz, irmão. 

Não consegui responder.
Acho que eu estava chorando. Ainda bem que o cameraman não estava gravando, porque ...
Ah, dane-se o Dalai Lama. 

Voltei pra casa, cheguei era alta madrugada. Perdi a conta nas Ave-Marias, mas tudo que eu conseguia pensar era que eu sou o maior idiota do mundo, e que a minha vida era muito fácil. Bem, mas pelo menos essa estadia no bairro carente tinha servido para algo muito bom: Ana aceitou jantar comigo. Que bom que eu tenho coração. Quando puxei a coberta, senti que ter ficado na casa de bandido me fez um pouco mais humano. Agora, além de um coração, tinha um estômago. 

Ah, e diga-se de passagem que o nome do cameraman é Odílio, e ele tem mestrado em ciências sociais por uma faculdade melhor que a minha.

5 comentários:

Anônimo disse...

Como sempre, seu texto está muito bom. Se me permitir, gostaria de fazer apenas um comentário. A transição do personagem pareceu um tanto rápida demais. Afinal, sabemos que, no geral, é muito difícil alguém mudar sua ideologia tanto em tão pouco tempo (posso estar falando besteira, se eu estiver, por favor, corrija-me)Keep up the good work!

Caio Oleskovicz disse...

Oi anônimo!
Obrigado pelo "como sempre" <3

Então, a minha própria ideologia mudou na velocidade do texto... Hehe! Uma semana, no máximo, e toda aquela coisa de "bandido bom é bandido morto" foi-se.

Obrigado <3 pelo comentário!

Brendo disse...

Excelente!

Também concordo que, às vezes, a gente muda de ideologia bastante rápido. Também achava que "bandido bom é bandido morto" antes de devorar alguns livros de Direito Penal.

FRANCISCO HARDY disse...

Oi Caio, muito bom! Gostei

FRANCISCO HARDY disse...

Oi Caio! Muito bom!