quarta-feira, 13 de agosto de 2014

O culto ao português coloquial

Esse será um post recheado de academicismos (como este!), o que torna tudo um pouco irônico. Eu sou uma pessoa que fala difícil. Isso acaba sendo muito mais um problema do que uma qualidade; garanto a vocês que não impressiono mulheres quando falho miseravelmente no uso de mesóclises (pois é. Eu falo difícil e errado). Mas é uma característica adquirida por certa bagagem literária e por ser, no cerne, um acadêmico de direito. “Cerne”. Que palavra horrível...

Existe toda uma espécie de devoção formal à língua portuguesa escrita da maneira mais rebuscada que se possa imaginar. Com efeito, vemos profissionais do direito, políticos e coisas do tipo utilizando-se exaustivamente de palavras “incomuns”, apenas pelo regozijo de escrever formalmente. Provarem-se conhecedores da língua às outras pessoas que nada esperam exceto também provarem-se conhecedores da língua. A burocracia brasileira adora isso; é uma espécie de ostentação fora do normal, por eles chamada de “deleite imensurável” ou qualquer coisa do nível.



Entretanto, é óbvio que essa língua não é utilizada no dia-a-dia para se comunicar, nem mesmo pelos  juristas, acadêmicos bocós, etc. Então, é discutível o motivo da sua existência; a utilização prática dela é nula, e mesmo onde é aplicada, poderia ser substituída por algo menos ortodoxo.

Vejamos.

A origem do uso português formal, este mais próximo do português clássico de Portugal e mesmo do latim, está completamente veiculada à imagem de “alto nível” que seus usuários querem vender. Trocando em miúdos, historicamente, a baixa língua é utilizada pelas bocas-miúdas; aqueles analfabetos, mendigos, negros, paupérrimos. Não querendo se misturar com essa gente, os legisladores (em especial) – com a falsa noção de mundo de estar acima da sua própria lei – usavam essa língua, espécie de distintivo. O emprego ainda é dos mesmos mencheviques (estamos falando russo aqui e aposto que você nem percebeu – a wikipedia, mais confiável fonte da internet, explica que a palavra “menchevique” é um derivativo da palavra russa большинство, “minoria”. Como não existem abrasileiramentos para a tal palavra russa, utilizei menchevique para dar a ideia de minoria. A comunicação é algo fantástico, mas pode ser uma bosta – é o caso). Com isso, podemos concluir que o apego à esse português nada mais é que uma forma de se agarrar ao tradicional, de sentir-se superior pelo emprego do desconhecido.

Também podemos rapidamente concluir sobre o eurocentrismo que a utilização do português tradicional remete; é óbvio que queremos (para nos sentirmos superiores) parecer com os Lordes Europeus, mesmo que façamos isso inconscientemente, apenas por respeitar o padrão-tradicional vigente.

Entretanto, há grande discussão sobre o português coloquial. Digo, se ele é coloquial, por que existem regras tão rígidas sobre sua estrutura? A resposta se concentra, na minha opinião, dentro da fonética do nosso idioma. Nossa leitura é completamente influenciada por nossa fala, nós pronunciamos tudo; é por isso que sinais gráficos e acentos são tão importantes. Mas, vejamos, letras maiúsculas? Bem, é uma espécie de consenso, pelo menos dentre as línguas latinas. Imagino que seja difícil ver o ponto final – por exemplo – em algumas situações, de modo que precisamos da inicial maiúscula subsequente para dar o devido destaque.  Quero dizer que existe um motivo não-subjetivo para a existência de cada uma das considerações – que são, afinal, rígidas, mas coloquiais – sobre o português informal.

Os linguistas, em sua maioria, a-do-ram dizer que “o que vale é a comunicação, a grafia é menos importante”. Como considero a grafia como um elemento básico para a comunicação, entendo que as regras do português coloquial servem apenas para ajudá-lo; com efeito, seu estudo deve ser aplicado porque a comunicação correta é mais agradável, mais fácil. Mas é incomum que as pessoas pensem assim; poucos escrevem corretamente, inclusive este que está aqui criticando a falta de capacidade de escrita dos outros está fazendo uso do autocorretor do Word (obrigado, tecnologia, por me fazer soar menos hipócrita).  Também observamos que existe uma espécie de português super-coloquial, algo que está além do “vc” e do “pq” – estes estão praticamente integrados. Essa língua é entupida de neologismos, cercada de pequenos erros de grafia, e pouco compreendida pelo Brasil inteiro (vá até São Paulo e peça uma bera, caro curitibano. Eu o desafio).

O mais engraçado ainda está por vir:  Este português super-coloquial é visto pela maioria das pessoas, especialmente as não tão jovens de corpo, como uma apologia à pobreza; ou seja, nosso querido e precioso português coloquial está tomando as vezes do português jurista. Irônico. Pra caramba. Estamos elevando o português coloquial ao classi-medismo. E, tal qual a burocracia, não percebemos isso.

Particularmente, acredito que deveríamos – no mínimo – respeitar esse português “não educado”; é a representação linguística de uma sociedade, de uma turma. As pessoas no mesmo rolê falam a mesma língua. Eles não precisam de regras; se entendem, e é o que basta para a comunicação.  Concordo que é indesejável que essa comunicação tome espaços públicos, pelo simples motivo de ser completamente orientada aos que falam o idioma; mas não abolida, quiçá desencorajada. A língua muda de acordo com a sociedade, e a breja está tão presente hoje quanto os brotos de outrora. Não faz sentido pedestalizar uma linguagem que tem como objetivo de existência a propagação da própria linguagem.

Com isso, vamos ao meio acadêmico. Não nas escolas superiores de português, mas à educação de crianças; falei, nesse texto, das “três” linguagens que vejo existindo e gostaria de evidenciar seu uso. Acredito que o português a ser ensinado é o coloquial. O super-coloquial não tem e nem deve ter lugar na escola, porque contraria sua própria essência – imagine se definíssemos que rolê tem circunflexo no “E”! – enquanto o tradicional deve ser explicado, mas não encorajado, como é feito em muitas escolas. Alunos pedantes não são alunos melhores. Um vocabulário extenso é desejável pela desenvoltura que isso dá para a pessoa, mas não para a utilização cotidiana do brasileirismo arcaico. Que todos nós falemos o português que quisermos, e mostremos o que todos compreendam.

É válida, portanto, a atitude de corrigir erros em palavras expostas, mas é inválida a repreensão ou o estereotipamento de quem utiliza termos que você “despreza”; você pode cair na própria armadilha.

Ah, agora uma deixa: tenho certeza que você – leitor atento que é – deve ter percebido que eu cumpri minha palavra e enfiei um monte de termo escroto no texto; desnecessariamente escroto. Flertei com o sarcasmo e com técnicas de escrita também. Isso é para mostrar que a comunicação é importante – e ela não precisa se ater a só um tipo de escrita. Inclusive, formalizar e inserir todos esses termos idiotas não facilita a compreensão e nem dá necessariamente confiabilidade ao texto: é só um jeito - bem babaca - de se mostrar. Uma elitização e um culto ao português culto. Por sinal, preciso terminar meu pão com vina e ir trabalhar.

Um comentário:

Felipe Cezar disse...

Caramba. Achei foda a tensão criada pelos termos coloquiais numa escrita muito bem elaborada. Concordo com o que você diz sobre falarmos o português que quisermos, afinal, o mais importante é a comunicação das ideias e não a polidez dos significantes. Mas acho válido o emprego arcade em prosas como a sua. No fim das contas, quem lida com língua não consegue escapar do culto. As vezes é o que, na ausência de qualquer outra divindade, é o que se conecta às nossas pulsões por transcendência.